(séc. XVIII, n. Marcelim, Tendais – f. Souto do Rio, Cinfães)
Pescador, Comerciante e Proprietário
José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos, que terá nascido no final da primeira metade do século XVIII, é um caso de sucesso que contradiz a ideia de fechamento da sociedade de classes do Antigo Regime, avessa à mobilidade social. A sua vida diz-nos muito sobre a capacidade empreendedora do homem setecentista e, mais ainda, da tenacidade dos filhos ilegítimos, a quem por lei ou por tradição nem sempre eram dadas as mesmas oportunidades. Encontramos a referência à sua vida no folhetim “Os dois faladores”, da autoria do notário A. Cardoso Pinto de Vasconcelos, publicado no jornal A Justiça:
“O Álvaro José Cardoso Pereira de Vasconcelos, que foi capitão de ordenanças [do concelho de Cinfães], casou-se com D. Quitéria Eufrásia Pinto de Vasconcelos, mas deste matrimónio não lhe sobreviveram filhos. Teve, porém, um filho natural de nome José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos Montenegro, sendo sua mãe Maria Rodrigues, solteira, de Marcelim da freguesia de Tendais, filha de Manuel Rodrigues e Natália Rodrigues Ribeiro, do mesmo lugar de Marcelim. Este José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos Montenegro, filho único, natural e perfilhado pelo pai, o dito capitão Álvaro, em vida do pai tomou conta da administração da casa, e pelo seu trabalho de pescador exímio, chegando a auferir da pesca 600$000 réis anuais, e de comerciante de frutas de espinho e de madeiras, tornou o cais do Souto do Rio um dos melhores do Rio Douro (1).”
Quando José nasceu, provavelmente na freguesia e concelho de Tendais, terra da sua mãe, a atual área de Cinfães era uma soma de jurisdições, onde pontilhavam os poderes de leigos e eclesiásticos. Nesta manta de retalhos, a única forma de singrar era pelo nascimento ou pelo casamento, momentos que aumentavam ou consolidavam posições e estatutos. Por isso, dificilmente alguém nascido fora do estatuto de nobreza ou fidalguia, sem recursos económicos substanciais, poderia, durante o seu tempo de vida, ascender a cargos (muitas vezes hereditários e clientelares) e a estatutos vedados a arrivistas.
Apesar das obrigações legais e religiosas, a moral pública parecia admitir casos de concubinato, adultério masculino e ligações espúrias, a avaliar pelos estudos demográficos que dão conta de uma elevada percentagem de nascimentos ilegítimos. Qual era o destino destas crianças? Bom, se os enjeitados – os filhos das ervas, como eram também designados, entregues à sorte da Roda ou a pais adotivos – seguiam o trabalho que requeria a manualidade (ofícios mecânicos), uma parte dos filhos bastardos podia ser legitimada, e, nesse conjunto, se a fortuna quisesse que fossem filhos de nobres, podiam ter percursos de vida muito semelhantes aos irmãos havidos sob legítimo matrimónio.
José da Silva beneficiou de maior fortuna: como do casamento do seu pai nunca houve descendência e querendo este dispor do seu nome e dos seus bens, legitimou-o, legando-lhe todas as prerrogativas inerentes aos seus antepassados. Mas não se ficou por aqui a sorte de José. Sua madrasta D. Quitéria Eufrásia Pinto Magalhães de Vasconcelos quis ratificar o gesto do marido e doou ao enteado os rendimentos de uma quinta que possuía em Quintela, rendimentos que “regulavam por mil alqueires de milho e trigo, dez pipas de vinho e muito feijão anualmente” (cf. nota 1). E foi assim que aquele que poderia ter sido apenas e só mais um rapaz sem pai, nascido numa pobre e longínqua aldeia da serra de Montemuro, se tornou não só um ativo comerciante, mas também um respeitado proprietário duriense. Não sabemos onde o autor do folhetim resgatou as informações que descrevem o percurso de José da Silva, mas ele não é diferente de outros que lhe eram próximos no tempo e no espaço.
Do outro lado da ribeira de Bestança, os Amaral Semblano protagonizaram uma história semelhante de conquista do poder por via comercial, contrariando o valor do sangue. Para compreendermos este tipo de escalada social, temos de perscrutar esta zona do rio Douro que era não só um foco emissor de mão de obra no crescente negócio do tráfego fluvial, como um local particularmente favorável à atracação dos barcos e, consequentemente, sítio privilegiado para o escoamento de produtos provenientes da montanha. É neste período que grandes investimentos privados serão aplicados a feitorizar as margens do rio e a ampliar o espaço disponível para a amarração. Souto do Rio e, em frente, Porto Manso eram locais que vinham da Idade Média como espaços de reconhecida importância no curso duriense, e, no século XVIII, cresce o burgo de Porto Antigo, que, com o assoreamento provocado pelo encontro das correntes do Douro com a Bestança, se tornara um destacado areal (nota 2). Neste espaço ribeirinho moviam-se arrais e barqueiros, mercadores e toda a sorte de oficiais ligados à faina fluvial. Próximo, na aldeia de Boassas, moravam alguns destes oficiais que se encomendavam à proteção da Virgem da Estrela, boa guia daqueles que tinham no Douro o seu principal caminho.
José da Silva começou como pescador, comerciando depois frutas de espinho e madeiras, ou seja, rentabilizando os proveitos da terra, de tal forma que já na confortável posição de proprietário, no seu solar de Souto do Rio, pode reabilitar o estatuto da casa do pai — entretanto falida — com o que havia amealhado durante a sua vida. Sobreviveu-lhe o pai, que viu a larga fortuna cobiçada pelos parentes vivos, como quase sempre acontece nestes casos. Aos seus três netos, filhos de José da Silva, cabia, feito o devido arrolamento dos bens, a “legítima vinte e três mil setecentos e dez réis”. Uma fortuna, à data do inventário (início do século XIX), que acumulava não só o património paterno, mas o que lhe cabia pelo bom casamento que havia feito com uma abastada herdeira de Rio de Moinhos (hoje concelho de Penafiel), D. Maria Inácia Vieira. Depois de contrariar a sociedade do seu tempo, ao abrir caminho, com as próprias mãos, por entre os costumes e o atrito das instituições, José da Silva sabia que um bom casamento podia assegurar a sua posição e garantir a solidez do estatuto.
Do seu casamento com D. Maria Inácia, nasceram pelo menos 4 filhos: João da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos, D. Leonor, Manuel da Silva e Álvaro. Apenas conhecemos o destino dos dois primeiros. João casou em 1807 com Ana Antónia de Serpa Pinto da Costa, filha do Capitão-mor António de Serpa Pinto da Costa, de Boassas, e de sua esposa D. Ana Angélica Abreu (bisavós do explorador A.A. da Rocha de Serpa Pinto, 1846-1900) e Leonor desposou Duarte Pereira da Silva, de Mourilhe. Deste último matrimónio resultaram descendentes em Travanca (com os apelidos Tameirão, Beleza e Vasconcelos). Do matrimónio de João da Silva e Ana Angélica resultaram os Serpa Pinto Abreus que são, ainda hoje, proprietários da Casa Nova de Souto do Rio, último testemunho de um espaço maior hoje submerso pelas águas represadas do rio Douro.
Num tempo em que se valorizam tão pouco os frutos da terra, a tenacidade e o empenho dos jovens, José da Silva Cardoso de Vasconcelos é o exemplo de como com o esforço se adquire ou sanciona o mérito.
NOTAS:
(1) [s.a., que supomos ser A. Cardoso Pinto de Vasconcelos] – “Os Dois faladores”. CASTRO, Adrião F. de, administrador, A Justiça, n.º 63 (1898).
(2) Dado que a “fisionomia” do vale mudou com as barragens (cf. imagem 1), é com alguma dificuldade que vemos escritas afirmações, provavelmente infundadas, sobre a importância do Porto Antigo. Aliás, o uso dos qualificativos “antigo” e “novo” causa algumas análises menos corretas quanto à evolução da paisagem – que tendemos a analisar do presente, caindo em anacronismos e reconstituições imperfeitas.
Como citar este artigo:
RESENDE, Nuno – Dicionário biográfico de Cinfães: José da Silva Cardoso Pereira e Vasconcelos. Porto: [edição do autor]. Pub. em http://historiadecinfaes.blogspot.pt/2010/01/jose-da-silva-c-pereira-e-vasconcelos.html (2010). [Consult. 20-07-2013]. Disponível em WWW: http://historiadecinfaes.blogspot.pt/.
NR
Nuno Resende, Historiador
Nasceu na vila de Cinfães em 1978