Breve história da ermida de São Pedro do Campo (Tendais)

Romeiros a São Pedro do Campo (1979?). Colecção APIF-NR.

 

Num extenso planalto deserto e inóspito, onde aqui e acolá crescem tojos e fetos, surge surpreendente, e em dias de nevoeiro como que nas próprias nuvens, a Capela de S. Pedro do Campo. Junto à capela encontramos pedras antigas, mamoas que eram locais sagrados e tumulares de sociedades e cultos pré-históricos. Sabemos que a memória do sagrado perdura e se converte; sabemos que Pedro em aramaico significa “pedra”, “rocha”. Temos, pois, aqui, neste entorno, em redor da capela, um espaço sagrado que perdurou no tempo e que hoje é anualmente motivo de romaria. Da origem da capela não temos registos, mas sabemos que no início do século XVIII já aqui, por onde passava uma estrada medieval, se realizava a feira da freguesia de Tendais, e é verosímil que nessa altura a capela já existisse. Devido à pureza dos seus ares, este local serviu também para tratar a tuberculose, sendo que a casa junto à capela, construção do século XIX, pode ter servido de abrigo a doentes ou a passantes ocasionais, para além do apoio ao culto. No vento sopram muitas histórias por este campo, das gentes que o percorreram, que aqui enterraram os seus mortos, adoraram os seus deuses, fizeram e desfizeram os seus negócios e onde até hoje S. Pedro, no dia 29 de junho, é celebrado.

Este texto pode ser lido num expositor colocado um pouco abaixo da ermida de São Pedro do Campo, na freguesia de Tendais, concelho de Cinfães. Infelizmente, como tem sido comum em Cinfães e em outros municípios do país, a promoção turística é preparada com a colagem de chavões recolhidos em obras de publicistas e monógrafos locais, que, muitas vezes, não têm a devida preparação para a interpretação de documentos e para a análise histórica. Em vez de um trabalho criterioso de inventário e estudo do património por especialistas (historiadores, arqueólogos, antropólogos), assumem-se textos não académicos e crónicas pessoais como material devidamente fundamentado.

O resultado é este: muitos adjetivos, misturas de conceitos, suposições e considerações supérfluas, com base em leituras à la minute que reproduzem frases ou ridículas ou ininteligíveis. Não perderemos muito tempo a dissecar as expressões “pedras antigas”, “locais sagrados e tumulares”, nem sequer as afirmações sobre os “bons ares” do local e o possível sanatório que existiria no Campo para tratamento da tuberculose, que, de tão estapafúrdias, não merecem qualquer comentário.

Tentaremos abordar, de forma sucinta (até porque não abundam as fontes históricas) e clara, a eclosão e a evolução do culto a São Pedro no sítio do Campo, um planalto hoje marcado pela disseminação de aerogeradores eólicos, mas ainda um dos destinos (mais recreativo e menos religioso) de muitos cinfanenses e de outros visitantes.

O Campo: História e Topografia

O “Campo”, onde hoje se situa a ermida dedicada a São Pedro, apóstolo de Cristo, nunca foi, historicamente, um “planalto estéril e deserto”. Sítio de pastagem e cultivo, serviu durante séculos os habitantes das povoações mais próximas, fornecendo-lhes alimento, materiais de construção (colmo), lenha e carvão vegetal – obtido através da combustão das urzeiras.

Tinham aqui, nestes maninhos, os limites dos seus termos, as aldeias de Casais, Sá e Aveloso. E, muito embora fosse, com certeza, lugar de passagem para o trânsito local, não existia qualquer estrada medieval que assegurasse ligações inter-regionais. A Idade Média criou ou refundou, a partir (ou não) das velhas estradas romanas e caminhos muçulmanos, vias muito específicas que faziam a ligação entre os povoados principais, seguindo a linha dos vales e procurando o caminho mais direto entre pontos. Construir uma estrada pelos cumes da serra seria não só uma obra dispendiosa como inútil, dado que não servia os principais povoados, localizados nos vales, onde se desenrolava praticamente toda a vida humana.

O “Campo” estava na rota dos pastores e dos almocreves, que seguiam certos trilhos de pé-picado, afastados das povoações, para escapar à portagem, um imposto estabelecido por certos municípios, coutos e honras para taxar os produtos em trânsito. É possível que, do encontro destes mercadores, num determinado ponto da serra, um lugar ameno e aquífero, tenha eclodido um efémero espaço comercial, depois transformado no feirote do dia 28 de junho, como lhe chamava o Abade de Tendais em 1758 (1).

O Culto e o Templo

A sacralização deste local é anterior a 1758 e já existia, pelo menos desde o início do século, um templo. A escritura de fábrica foi assinada em 1702, nas notas do tabelião Lourenço da Silva de Magalhães, e comprometia os moradores de Casais, Sá e Meridãos a zelarem pelo edifício e pela manutenção do culto na ermida erguida no planalto.

Em 1704, foram apresentados à Câmara Eclesiástica de Lamego uns certos Autos do Requerimento dos Moradores do Lugar dos Cazaes e outros da freguezia de Tendaes sobre a fabrica capela de S. Pedro do Campo (2). Embora não conheçamos o teor deste requerimento (infelizmente desaparecido dos fundos daquela instituição), sabemos pela epígrafe que a ermida de São Pedro estava a cargo dos habitantes daquelas aldeias. Pelo menos até 1726, pois, quando nesse ano o Visitador Eclesiástico passou por Tendais para avaliar o estado do património e a decência do culto na igreja e nas ermidas da freguesia, a de São Pedro estava interdita e nela se não dizia missa. Ao que parece, os moradores das três aldeias tinham deixado o templo cair no desleixo, descurando assim a sua obrigação na conservação e manutenção do culto.

Não deixa de causar estranheza que, concorrendo os moradores de três povoações para a fábrica anual, a capela ficasse sem orçamento e desamparada. Contudo, dada a circunstância de se situar num local isolado, sujeito ao rigor das intempéries e à ignomínia humana, talvez isso explique uma deterioração mais rápida. Por outro lado, não sabemos de que “ermida” falava o visitador de então: talvez um edifício menor, de alvenaria solta, menos cuidado do que o que atualmente existe, um robusto e sólido edifício de meados de setecentos, cujo trabalho de cantaria evidencia um investimento maior, talvez resultado da insistente admoestação dos visitadores da segunda metade do século XVIII.

A Devoção a São Pedro

Embora São Pedro do Campo nunca tenha alcançado o estatuto de santuário (como a Senhora do Fojo, em Gosende, ou o da Senhora de Cales, em São Cristóvão de Nogueira), que exigia, entre outros aspetos, a existência de curas milagrosas (documentadas em ofertas votivas que se não conhecem para esta ermida), a apetência do homem por locais elevados, no cume das montanhas, ocasionou uma crescente romaria ao local, de resto estimulada pela necessidade de recreio e pelo comércio.

Mas, São Pedro de Tendais não poderia singrar como santuário hagioterapêutico, onde os homens e mulheres da região procuram alívio ou cura para as suas doenças. É no topónimo “Campo” que vamos buscar a resposta para tão inusitada construção religiosa. Num tempo em que se arroteavam as terras acima dos 1000 metros de altitude para aproveitamento do espaço agrícola comum (4) que escasseava no vale, pedia-se a Deus, a Cristo, à Virgem e aos Santos que ajudassem aquela cultura de último recurso, desprotegida e sujeita aos desígnios da meteorologia. Dedicar a São Pedro, porteiro do paraíso, uma ermida no meio do “Campo”, espaço, por excelência, do cultivo cerealífero, era encomendar ao Apóstolo a proteção das culturas e, por extensão, dos habitantes que delas dependiam.

Por isso, e embora São Pedro seja uma das devoções mais populares no mundo católico, a ermida do Campo constituiu, desde a sua construção, um marco que testemunha a importância da humanização da serra, de longe inóspita e desértica. E não representa qualquer sobreposição cultual que, de uma forma sincrética, apenas se limitava a prolongar um espaço sagrado, onde milhares de anos antes o homem havia enterrado ou erguido certos marcos. Se o homem pré-histórico o fez, e a arqueologia está aí para o provar, fê-lo com intuitos muito diferentes daqueles que, séculos depois, levaram os moradores de Casais, Sá e de Meridãos a louvar o auxílio do Primeiro Papa da Igreja.

Notas:

(1) Segundo o Abade António Leite Pereira, em toda a freguesia só se fazia um feirote em dia de São Pedro, no Campo; TT [Arquivo Nacional Torre do Tombo], Memórias Paroquiais (1758), Tendais, p. 236.
(2) ADL [Arquivo Diocesano de Lamego], Inventario dos papeis da Camara Ecleziatica deste bispado no anno de 1686, fl. 145.
(3) ADL, Douro Capelas e Confrarias, 1726, fl. 41 v.º
(4) Quando nos referimos a “espaço agrícola comum”, queremos dizer maninhos, logradouros públicos, ou comunais, que podiam ser cultivados sem autorização de um senhor e que não pagavam foros ou outras contribuições.

About the author

Nuno Resende, Historiador
Nasceu na vila de Cinfães em 1978

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